Quarta-feira, Março 25, 2009
Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
True Blood
.
Theme song:
Jace Everett - Bad things
:
I wanna do bad things with you.
When you came in the air went out.
And every shadow filled up with doubt.
I don't know who you think you are,
But before the night is through,
I wanna do bad things with you.
I'm the kind to sit up in his room.
Heart sick an' eyes filled up with blue.
I don't know what you've done to me,
But I know this much is true:
I wanna do bad things with you.
When you came in the air went out.
And all those shadows there are filled up with doubt.
I don't know who you think you are,
But before the night is through,
I wanna do bad things with you.
I wanna do real bad things with you.
Ow, ooh.
I don't know what you've done to me,
But I know this much is true:
I wanna do bad things with you.
I wanna do real bad things with you.
...
Official Website:
http://www.hbo.com/trueblood/
,
Quinta-feira, Janeiro 22, 2009
.
A função da arte/1
Quando o menino e o pai enfim alcancaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidao do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!
Nao consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas
palpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.
― Arranque-me, senhora, as roupas e as duvidas. Dispa-me, dispa-me.
Eu adormeco as margens de uma mulher: eu adormeco as margens de um abismo.
Em Buenos Aires, na ponte da Boca: Todos prometem e ninguem cumpre.
Vote em ninguem.
Em Caracas, em tempos de crise, na entrada de um dos bairros mais
pobres:
Bem-vinda, classe media.
Em Bogota, pertinho da Universidade Nacional:
Deus vive.
Embaixo, com outra letra:
So por milagre.
E tambem em Bogota:
Proletarios de todos os paises, uni-vos!
Embaixo, com outra letra:
(Ultimo aviso.)
Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavo encontra seu bisneto. O bisavo esta completamente lele (seus pensamentos tem a cor da agua) e sorri com o mesmo beatifico sorriso de seu bisneto recem-nascido. O bisavo e feliz porque perdeu a memoria que tinha. O bisneto e feliz porque nao tem,
ainda, nenhuma memoria.
Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Nao a quero.
Celebração das contradições/l
Como tragica ladainha a memoria boba se repete. A memoria viva, porem, nasce a cada dia, porque ela vem do que foi e e contra o que foi. Auiheben era o verbo que Hegel preferia, entre todos os verbos do idioma alemao. Auiheben significa, ao mesmo tempo, conservar e anular; e assim presta homenagem a historia humana, que morrendo nasce e rompendo cria.
Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da America. Nestas terras, a cabeca do deus Eleggua leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa e uma ameaca; cada perda, um encontro. Dos medos nascem as coragens; e das duvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possivel e os delirios, outra razao.
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade nao e uma peca de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa sintese das contradicoes nossas de cada dia.
Nessa fe, fugitiva, eu creio. Para mim, e a unica fe digna de confianca, porque e parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e a louca aventura de viver no mundo.
Na ilha de Vancouver, conta Ruth Benedict, os indios celebravam torneios para medir a grandeza dos principes. Os rivais competiam destruindo seus bens. Atiravam ao fogo suas canoas, seu azeite de peixe e suas ovas de salmao; e do alto de um promontorio jogavam no mar suas mantas e vasilhas. Vencia o que se despojava de tudo.
Rosa Maria Mateo, uma das figuras mais populares da televisao espanhola, me contou essa historia. Uma mulher tinha escrito uma carta para ela, de algum lugarzinho perdido, pedindo que por favor contasse a verdade:
— Quando eu olho para a senhora, a senhora esta olhando para mim?
Rosa Maria me contou, e disse que nao sabia o que responder.
Segunda-feira, Janeiro 12, 2009
Terça-feira, Dezembro 23, 2008
Quinta-feira, Setembro 18, 2008
Dialética
Sexta-feira, Agosto 22, 2008
Quarta-feira, Julho 16, 2008
Abreu, Caio Fernando.
Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para falar, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, o ver, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.
No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?
(Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)
Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus.
Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço. Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas caírem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã'.
Sexta-feira, Julho 11, 2008
Kaos
Terça-feira, Junho 10, 2008
Quinta-feira, Maio 15, 2008
Liebestod *
Se não falas, vou encher o meu coração
A manhã certamente virá,
Então as tuas palavras voarão
Rabindranath Tagore
Quinta-feira, Maio 08, 2008
A Literatura e a Vida, por Gilles Deleuze.
Decerto que escrever não é impor uma forma (de expressão) a uma matéria, a do vivido. A literatura tem que ver, em contrapartida, com o informe, com o inacabado, como disse Gombrowicz e como o fez. Escrever é uma questão de devir, sempre inacabado, sempre a fazer-se, que extravaza toda a matéria vivível ou vivida. É um processo, quer dizer, uma passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido. A escrita é inseparável do devir: ao escrevermos, devimos-mulher, devimos-animal ou vegetal, devimos-molécula até devir-imperceptível. Estes devires encadeiam-se uns com os outros segundo uma linha particular, como num romance de Le Clézio, ou então coexistem em todos os níveis, por intermédio de portas, entradas e zonas que compõem o universo inteiro, como na poderosa obra de Lovecraft. O devir não vai noutro sentido: não devimos Homem, mesmo que o homem se apresente como uma forma de expressão dominante que pretenda impor-se a toda a matéria; ao passo que mulher, animal ou molécula têm uma componente de fuga que se descarta à sua própria formalização. A vergonha de se ser um homem: haverá melhor razão de escrever? Mesmo quando é uma mulher que devém, ela tem de devir-mulher, e este devir nada tem que ver com um estado de qual poderia vir a reclamar-se. Devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, Mimésis), mas é encontrar a zona de vizinhança, de indiscernibilidade ou de indiferenciação, de maneira que já não nos podemos distinguir de uma mulher, de um animal ou de uma molécula: e que não são nem imprecisos nem gerais, mas imprevistos, não-preexistentes, tanto menos determinados numa forma quanto mais singularizados numa população. Pode-se instaurar uma zona de vizinhança com qualquer coisa, com a condição de que se criem os meios literários para isso, como com o áster, segundo André Dhôtel. Entre os sexos, os gêneros ou os reinos, qualquer coisa passa 2.Quarta-feira, Abril 23, 2008
Éter
Cecília Braga
...
'...De profundis? Alguma coisa queria falar... De profundis... Ouvir-se! prender a fugaz oportunidade que dançava com os pés leves à beira do abismo. De profundis. Fechar as portas da consciência. A princípio perceber água corrompida, frases tontas, mas depois no meio da confusão o fio de água pura tremulando sobre a parede áspera. De profundis. Aproximar-se com cuidado, deixar escorrerem as primeiras vagas. De profundis... Cerrou os olhos, mas apenas viu penumbra. Caiu mais fundo nos pensamentos, viu imóvel uma figura magra debruada de vermelho-claro, o desenho com um dedo úmido de sangue sobre um papel, quando se arranhara e enquanto o pai procurava iodo. No escuro das pupilas, os pensamentos alinhados em forma geométrica, um superpondo-se ao outro como um favo de mel, alguns casulos vazios, informes, sem lugar para uma reflexão. Formas fofas e cinzentas, como um cérebro. Mas isso ela não via realmente, procurava imaginar talvez. De profundis. Vejo um sonho que tive: palco escuro abandonado, atrás de uma escada. Mas no momento em que penso "palco escuro" em palavras, o sonho se esgota e fica o casulo vazio. A sensação murcha e é apenas mental. Até que as palavras "palco escuro" vivam bastante dentro de mim, na minha escuridão, no meu perfume, a ponto de se tornarem uma visão penumbrosa, esgarçada e impalpável, mas atrás da escada. Então terei de novo uma verdade, o meu sonho. De profundis. Por que não vem o que quer falar? Estou pronta. Fechar os olhos. Cheia de flores que se transformam em rosas à medida que o bicho treme e avança em direção ao sol do mesmo modo que a visão é muito mais rápida que a palavra, escolho o nascimento do solo para... Sem sentido. De profundis, depois virá o fio de água pura. Eu vi a neve tremer cheia de nuvens rosadas sob a função azul das vísceras cobertas de moscas ao sol, a impressão cinzenta, a luz verde e translúcida e fria que existe atrás das nuvens. Fechar os olhos e sentir como uma cascata branca rolar a inspiração. De profundis. Deus meu eu vos espero, Deus vinde a mim. Deus, brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura. Deus vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e Deus por que não existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti? Deus vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco e o que me resta para viver no entanto continuará intocado e inútil, por que não te apiedas de mim? que não sou nada, dai-me o que preciso. Deus, dai-me o que preciso e não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo por vós e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, Deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós...
Agora os pensamentos já se solidificavam e ela respirava como um doente que tivesse passado pelo grande perigo. Alguma coisa ainda balbuciava dentro dela, porém seu cansaço era grande, tranqüilizava seu rosto em máscara Usa e de olhos vazios. Das profundezas a entrega final. O fim...
Mas das profundezas como resposta, sim como resposta, avivada pelo ar que ainda penetrava no seu corpo, ergueu-se a chama queimando lúcida e pura... Das profundezas sombrias o impulso inclemente ardendo, a vida de novo se levantando informe, audaz, miserável. Um soluço seco como se a tivessem sacudido, alegria rutilando em seu peito intensa, insuportável, oh o turbilhão. Sobretudo aclarava-se aquele movimento constante no fundo do seu ser — agora crescia e vibrava. Aquele movimento de alguma coisa viva procurando libertar-se da água e respirar. Também como voar, sim como voar... andar na praia e receber o vento no rosto, os cabelos esvoaçantes, a glória sobre a montanha... Erguendo-se, erguendo-se, o corpo abrindo-se para o ar, entregando-se à palpitação cega do próprio sangue, notas cristalinas, tintilantes, faiscando na sua alma... Não havia desencanto ainda diante de seus próprios mistérios, ó Deus, Deus, Deus, vinde a mim não para me salvar, a salvação estaria em mim, mas para abafar-me com tua mão pesada, com o castigo, com a morte, porque sou impotente e medrosa em dar o pequeno golpe que transformará todo o meu corpo nesse centro que deseja respirar e que se ergue, que se ergue... o mesmo impulso da maré e da gênese, da gênese! o pequeno toque que no louco deixa viver apenas o pensamento louco, a chaga luminosa crescendo, flutuando, dominando. Oh, como se harmonizava com o que pensava e como o que pensava era grandiosamente, esmagadoramente fatal. Só te quero, Deus, para que me recolhas como a um cão quando tudo for de novo apenas sólido e completo, quando o movimento de emergir a cabeça das águas for apenas uma lembrança e quando dentro de mim só houver conhecimentos, que se usaram e se usam e por meio deles de novo se recebem e se dão coisas, oh Deus.O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a... Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo'.
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.
Domingo, Março 30, 2008
Compulsão.
Persepolis - De: Vincent Paronnaud, Marjane Satrapi. A animação foi ainda premiada nos festivais de Cannes, São Paulo e Vancouver.
Into the Wild - Baseado em fatos reais e no livro Into the Wild, uma “biografia” de Christopher McCandless escrita por Jon Krakauer. Direção de Sean Penn.Vale pela direção, pela trama, pela trilha sonora, pela realidade que sustenta o drama. A trilha sonora, composta por Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, seu primeiro álbum solo. Bom por demais.
La Faute à Fidel! - Julie Gavras é filha do cineasta Costa Gavras e dirigiu e roteirizou o belíssimo “A Culpa é do Fidel”. Uma adaptação livre do romance Tutta Colpa di Fidel, da jornalista italiana Domitilla Calamai. De uma uma poesia cotidiana sem igual. Para re-pensar valores, ideias, afetos, a solidariedade, o comportamento de ovelha e a vida. Para aprender com os erros e se transformar. Ainda é tempo, sempre.
The Bucket List - Com: Jack Nicholson e Morgan Freeman. Uma das letras mais fabulosas do John Mayer, que canto feito prece, ainda mais que sou fã: Say.
Le Scaphandre et Le Papillon - Baseado na vida de Jean-Dominique Bauby.
"Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?"
Jean-Dominique Bauby - O escafandro e a borboleta, Livros do Brasil, 1999.
Bauby, + 9 de março de 1997.
Alguns filmes que mexeram na espinha dorsal dos meus significantes. Corre e assiste.
'O olho vê,
a lembrança revê
e a imaginação transvê'.
Manoel de Barros
Sábado, Março 29, 2008
Aranyani *
But what I'm thinking of just this time Why don't you...
Lay your head down, Keren Ann
(in my arms).
Domingo, Março 02, 2008
How often do you find the right person?
Once.
Vamo assistir, pessoas. Para perder menos tempo com joguinhos. Para vencer o medo. Para dizer o que tiver que ser dito, mas não em outro idioma. Por favor. Chega de tanto tentar salvar nossa pele. Já sabemos, ela alcançará seu fim. Salvemos nossa alma da ruína, desse excesso de gestos comedidos, do medo, da solidão.
Porque fugir é instintivo, e é biologicamente tão mais fácil e provável. Ficar é escolha.
Que haja amor e menos covardia nas nossas escolhas... Senhor, escutai as nossas preces. Amém.
Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
Cadère
Tinha medo de despelar depois do beijo. E de tudo mais que pode acontecer quando se tem o Alasca no estômago de um corpo em chamas. Por isso, prendia a respiração para sonhar. Subterfúgio. Sim, já que é tão difícil acordar com o coração na altura dos ouvidos. E saber que o corpo canta uma fé ancestral, batucandobatucandobatucando em peito aberto. O pensamento dançando em círculos ao-redor-de-um-nome. Flamejante. De tanto crê, um êxtase fechou-lhe os olhos. Ela acredita que o silêncio pode pigmentar os versos. E que uma saudade alonga as pernas das horas. Em vão. O tempo tem suas birras. Então, barganha: dedilha a noite inteira num livro, debruça em seus olhos sua alma que gorjeia para a escuridão passar e treme. Porque sua linguagem guarda cadência de nuvens: quando suspira, ele lhe pode ler. E quando pensa, já está entregue. Nos versos. Aí, engole a seco uma estrela. Só pra ter uma reminiscência luminosa. Ele já pesponta a bainha de todos os seus pensamentos, idos e vindos. Por temor, reza. Por amor, deseja. : Que o sol penetre os recantos da tarde até essa ausência pintar um poente, e em ventre tão celeste o orgasmo do sol respingue as primeiras estrelas. Pra ele chegar. E abrir os braços, inclinar ao céu seus pensamentos, elevar o corpo pelas pontas dos pés, deitar as pálpebras, suspirar, escrever com o corpo extasiado os melhores versos. Enquanto ela retoma o fôlego. Porque certas leituras lhe tiram o ar, e logo depois o sono. Cecília Braga
Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Terça-feira, Janeiro 08, 2008
Cielo
Nem ousava ser Natal. Talvez por isso, e por que uma moça vestia uma paz tão em guerra, eu tenha ancorado meus pensamentos entre o polegar e o indicador da sua mão esquerda.Agora, além dos três lírios, ela tinha nas mãos a minha atenção. Tudo amarelando ali.Pesar de preces antigas nas gavetas do tempo. Recitadas com fé ácida e algumas ânsias.
Quarta-feira, Dezembro 19, 2007
Segunda-feira, Novembro 26, 2007
Braile
Aprendi a me refazer em teus braços. Em dias assim, ainda me sinto retardar os passos só pra conter o choro. Até te alcançar. Eu só sabia me deixar doer em teus braços. Ía inspirando rápido e profundamente como quem teme o escapar da vida num soluço. Depois, nem temia mais. Soluçava doído. De quando em quando, parece tão impossível continuar a viver. Aí, um desejo de árvore rompe o asfalto.
Quinta-feira, Novembro 22, 2007
Sexta-feira, Novembro 16, 2007
In un Baleno (Num piscar de olhos).

Todo meu descanso é no azul, e só. As minhas pernas se estiram nos horizontes.
Prossigo, mesmo sendo corda-bamba.
Dos deslumbres: as idéias ficam suspensas... Em teima de vôo. Em deleite de mergulho.
Nem um suspiro me aquieta mesmo quando, de tão alto, inalo nuvens.
Tenho esse vento frio na altura do estômago,
coração apertando, o corpo trêmulo... Chuva guardada. Deve ser.
Tem coisas que se pensando, logo concretizam...
tanto pensamento de medo, trovejando.O corpo fazendo calafrios.
Chorei logo um mar inteiro. Pra mudar essa paisagem de deserto.
O jeito foi pegar cajado e intimidades de Moisés com Deus, e caminhar mar adentro.
Pra espalmar minhas mãos de angústia no azul. Como quem se ampara, e evita quedas.
(Dos segredos: Deus gosta de engabelar o espaço: Amarra a linha do tempo nos dedos, faz ioiô do sol:
diiiiaaaaaa-noiiiiiteeeee, diiiiiaaaaa-noiiiiiteeeee...).
Aí era tarde, tinha caído já...essa coisa de espaço, só não sabia. Ainda não.Só com o tempo...
Sabendo de mim, ele sorriu. Encostou também sua destra no azul, que de angústia ele bem entende.
Dos fatos: Tínhamos tantas cores de sentimentos nas mãos, misturadas,
Deus é menino. E tem todas as idades...Das lições.
Fechei os olhos em prece, só pra ascender por dentro essa noite.
Um mantra desenha o movimento dos ventos. E o cabelos cantam.
Sento entrenuances, ritualisticamente sansei. (como quando algo me revela).
O peito entregue, cede. E sinto o coração estremecer entre joelhos.
Das manias: só sei me dissolver no instante, extática.
Das posses: sou dona de todo um desajustamento, muitas instabilidades e de um querer-com-todo-ser.
Das aprendizagens, ou das possibilidades de.
Das dificuldades: pelejar com minhas carências, e suas manias de grandezas.
Das constatações: essência tem dimensões, em número de 10 (é universo quântico), e intensidades.
De quase todas minhas impossiblidades: acorrentar um gesto, dissimular um querer, sufocar uma palavra,
Do que por si só, não adianta: O atrito de corpos.
Das entregas: só conheço a que se inflama na fé. Daniel nas labaredas de fogo.
Das seduções: as naturalidades.
Das esperas: a sua, porquê ando cansada...
*
*
*
Cecília Braga
Segunda-feira, Outubro 22, 2007
Sexta-feira, Outubro 19, 2007
Aguapé-Assú

Ela minhocava a planta dos pés na areia como quem areja as sustentações das idéias...Um esbocejar de raízes. Tirar um deste-tanto de si, multimorfosear-se pelas ausências. Acrescenando-se de si, nos idos e findos, e em todos os vindos. Bem em prol de finiciar. a si? Vida que dorme no morrer da semente, aguarda o último suspiro, sopro de vida, pra respirar.
Desandou, coitada, com tantas inrespostabilidades. Pois, aquele des-sentir lá no longe, ela teimaniava de apelichamar de Saudade. Maiúsculas letricidades iniciáticas, batismo de cartório, só pra lavrar a propriedade do nome. Danou, então, a deitar distâncias na voz. Botou astúcia de arco nas cordas vocais. Mirou no querer-sem-fim. Diafragma é coxia. Ar montado nos horizontes. Largou. Voz pareia com o vento. E dispara. Pra nunca mais se alcançar.
Deu, nos depois, pra contar as demoras bem miudinho.: - antes do segundo vem o quê?
Queria desatingir-se no anti-tempo. Descontava-se nas somas. Perdia-se. Das agonias do que não chega.
O bafo-de-guardados lhe anunciava...Pois, tantos anteriormentes mofando na boca.
E não era que ele nunca tendo vindo, e nem ido... não sabia ela, agora, como ele facultava ficar-ir-vir, tudo ao mesmo tempo, sem se filiar ao tempo, mas dele sendo capaz de se engravidar até insandescer ou encaramujar-se?
:-Deixe estar, nos de dentro é jejum prolongado...Daqueles de quando o corpo já não tendo do que se nutrir, auto-fagia.
Autofágicossassinado, coitado. Morreu Nãodito. Nem a-deus pronunciou. Mas, desgra..dou-se parcialmente. Explico. Confusequiparado foi. Por muito parecer com os músculos cardíacos. Aí, digestão de si acaba é nunca....dá logo nos nervos.
Ficou só um resto imortal de um sem-sentido.Desmembro fantasma.
Doi, por vezes. Um quase nada, agudo.
: -Vixe, vixe. Volta pessoa, volta.
Porque é tudo tão nos interiores invisíveis de dentro dos de dentro... só em atos se professa...o quê? uma credulidade cienfatídica? Uma incredulidade visível de si? Uma credulidade nos invisíveis que ela vê?. : -Cada um, cada coisa. Vai saber.
Coração começou foi a se desaninhar no peito, só pra reclamar da insegurança dessesditamor. Ela desacomodava-se com incomodaquicionices, criadas ou não.
Ela sentia mesmo era saudade desse tempo que desconhecia...de quando as pessoas desusavam band-aid como motivos para inesquecer. Curativelopes, lembresquecedores. Tudo instruído lá no machucado, acobertadamente. O que deve, e até onde. E o que não.
Corpo-tablóide. Burocrontros...Fábricas de jornais. Um passando pelo outro, atrito. Não fosse a desumanidade umedecendo o ar, fogo.
Vazio pós-Reveillon, no desamanhecer do novo.
Leitura de curativos e jornais,
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Cecília Braga
Quinta-feira, Setembro 20, 2007
Amar-elo
Ela suspirou.Queria que a palavra presa no peito deslizasse no papel,
feito sua mão na dele...
Porque seu corpo não conseguia tocar sozinho no êxtase.
E por mais que as vontades todas , premeditadamente, se ericem nas mãos, ela sabia.
Todo extremo abriga a possibilidade de escape e de entrega.
Foi com assombro e júbilo que sua mão encontrou a dele,
E fechou os olhos enquanto entrelaçavam-se os dedos, tecendo uma prece.
Depois abriu. Como quem resiste.
Mas ele foi lhe despindo as palavras até que ela atingisse sua in-civilização.
Agora ela só encontra abrigo no que lhe desestrutura.
Deixa então as mãos dele passear no seu corpo,
Remetendo-lhe ao principio de todas as coisas,
Era como se o universo se originasse ali, naquele encontro.
Assim se fez, pois.
Ela lhe arranhava coloridos neóns,
De tanta poeira intergaláctica abrigada nas suas unhas.
Só para depois enluvar as mãos de nuvens, percorrer as marcas,
E ter um céu todo seu, co-lo-ri-do.
Quando ela disse: - Deix'eu te aprender?
Já era dona de infinitas certezas, ele universo inteiro em expansão.
Mas ela só queria mesmo era ser única moça a habitar naquela estrela feita de grafite azul no lado esquerdo do peito dele.
Disse tudo assim, desexplicado e dumavez. Pois o que ela gostava era de ver a confusão acentuando a intensidade do olhar dele, nela. A tal ponto que sem dizer, consiga lhe interrogar:
- Estrela ?
Sim, sim. Ela tinha essa ansiedade infantil e tudo que queria era contar logo. E contou:
- A estrela que tá guardada aqui ó, nessa aquarela... que vou te desenhar aí, no peito.
É que pensei que podíamos começar pintando nossas paredes...
Só para colorinhecer tudo que nos sustenta e protege.
Tu deixa?
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Cecília Braga
Domingo, Setembro 02, 2007
Fototropismo
Do desencontro aos seus anteriormentes era tanto remendo de palavras, que descarece de se ter olhar de moça prendada para diagnosticar que sendo tudo feito e posto de demasiados restos e sobras, jamais haveria de se configurar ali um cobertor. Sábado, Agosto 04, 2007
~ Azo ~
Pediu a mão da moça.Na sua alma de criança tudo era também recreação.
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Terça-feira, Julho 31, 2007
Plim, Plim.
Regrinhas todas lá, no Nada Pra Mim
Escolho estes aqui ó:
Garatuja (Casa dela que é Girassol pra mim).
Câmera Crônica (Do moço das palavras mais bonitas).
Corra, Gu, Corra (Um chucrute de moço que sou fã - Nem sei se pode ser fotolog. Tento).
Serendipities (Que alma dela dança linda lá, precisa de vê).
Doida de Marluquices (Casa de Airumã).
Gentes que leio faz tempo.
E é difícil isso viu, deixar pessoas de fora.
Todos que partilham comigo do meu espaço são constelações.
beijos na alma.









